O sabor da manga espada

Postado em mar 14, 2015 | Um comentário
O sabor da manga espada

O compositor Atahualpa Yupanqui teve sua composição “Los Hermanos” imortalizada na bela voz da cantora argentina Mercedes Sosa. A primeira estrofe da letra diz: “Yo tengo tantos hermanos/ Que no los puedo contar/ En el valle, en la montaña/ En la pampa y en el mar”. Em livre tradução: Eu tenho tantos amigos/irmãos que nem posso contar, nos vales e nas montanhas, nos campos e no mar.

Eu também tenho muitos amigos e os encontro em todos os lugares. Ainda outro dia, depois de um longo período sem nos vermos, encontrei, para minha alegria, meu amigo Elyseu Sícoli, dentista, natural de Monte Alto, formado em odontologia no longínquo ano de 1953. Enquanto conversávamos, tomamos cafezinho e, entre tantos assuntos, inclusive da roça, ele me disse que, com as recentes chuvas, as mangas no pé amadurecem rapidamente. Eu comentei que sim e inclusive tinha ganhado da minha sogra, dona Maria Lara Noboa, algumas mangas espada lá de Poloni, e fui aconselhado por ela para, quando fosse comê-las, deveria fazer igual quando era menino lá na roça.

Despedimo-nos. Não via a hora de chegar em casa, para saborear as mangas espada e, claro, pensei na dona Maria Lara e no seu aviso carinhoso. Peguei a fruta e aos poucos fui amassando, até que ela ficasse mole por dentro. Fiz um pequeno furo na ponta e dela saiu um néctar delicioso que imediatamente me transportou aos tempos de criança, embaixo dos imensos pés, próximos do corguinho onde, em bandos, íamos nos banhar. Depois do banho, alguém gritava: “Quem chegar por último é muié du padri”. Imaginem um monte de meninos saindo pelados da água, tendo que se vestir às pressas para não ser mulher do padre. O último que chegasse era alvo de chacotas pelos demais. Molhados que estávamos, saíamos em desabalada carreira em direção aos pés das deliciosas frutas.

​Nessa época do ano, logo após as chuvas de outubro, pés de manga espada, manteiga, teta de moça, rosa e coração de boi ficavam carregados de frutos.

​No começo da safra, as primeiras eram derrubadas atirando pelotas de saibro com o estilingue. Com o passar dos dias, o pé ficava carregado dos frutos maduros, era esperar pelo vento e escolher no chão a melhor, sem esforço algum.

​Com várias delas no colo, sentávamos nas raízes da árvore. Eu gostava de amassá-las e sorver o néctar, depois, tirava a casca para terminar o serviço. Chegava em casa com a cara toda lambuzada de amarelo e, entre os dentes, fiapos da manga que resistiam em não sair.

​Embaixo das mangueiras, tinha um enorme cocho de aroeira onde colocavam sal para o gado. Quando a fruta estava nem verde nem madura, “manga di vêis”, essas, com ajuda de um canivete, eram descascadas, cortadas em fatias e passadas no sal. Imaginem a delícia que era comer manga verde com sal. Só de lembrar, dá água na boca. Às vezes penso que os meninos e meninas da roça tinham estômago de avestruz. Comíamos de tudo e nada fazia mal algum. Hoje, tenho azia só de pensar nessas loucuras. Mas que dá saudade, isso dá!

​Meu amigo Elyseu, quando eu ganhar novos frutos da dona Maria Lara vou repartir com você. Faça igual quando era criança lá na sua Monte Alto. Tenho certeza que o menino vai aflorar e você irá se emocionar, assim como eu me emocionei, ao lembrar-me dos meus tempos de criança com manga espada entre as mãos. E, se possível, ouça Mercedes Sosa cantando: “Yo tengo tantos hermanos…”

JOCELINO SOARES

 

1 Comentário

  1. Irlei Moreira Lage
    3 de abril de 2015

    É uma coisa bem estranha, leio teus artigos, ouço-te na CBN, te vejo aqui, conheço tua vida aqui publicada… Ate me parece ser da família, e no entanto você nem sabia que eu existia, é como uma estrada de mão única… e vou ter a ousadia de chama-lo de meu amigo. Olha Jocelino, eu também gosto de escrever, e até tenho meus “causos da Terrinha”. Sou de Campo Belo, Minas Gerais, mas moro em Mirassol. Vou endireitar estes dados:
    Nasci na roça em Campo Belo, aos sete anos mudamos para a cidade, aos quinze, 1964, mudamos para São Paulo, aos 44 anos, 1993, mudamos para Mirassol. Voltei para a roça. entre Mirassol e Jaci, aqui escrevo meus casos, minhas histórias, meus romances. inté, obrigado amigo.

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