Facho de Luz

Postado em mar 14, 2015 | Sem nenhum comentário
Facho de Luz

Tenho o hábito de, aos sábados pela manhã, saborear pastéis na feira-livre da Imperial. Esse costume aprendi com os caboclos da roça. Quando vínhamos pra cidade e, antes de voltarmos pra casa, íamos até a feira “armoçá” as iguarias. Um sábado desses não foi diferente. Cheguei, sentei, cumprimentei o Pedrinho, que perguntou se era o de sempre. Disse que sim. Ao meu lado, sentado e já degustando, um senhor que, pela aparência, tinha atravessado as oito décadas. Tocou meu joelho, chamando minha atenção, dizendo que lê aos domingos as crônicas aqui publicadas. Agradeci, percebi que o senhorzinho queria prosa. Eu estava com tempo, e prosa é comigo mesmo, ainda mais se tratando de pessoas de cabelos encanecidos, como ele, que tem sempre histórias pra contar. Eu estava certo. Ali, sentados, eu e ele, no banquinho em plena feira, eu ouvia as histórias que seu José da Silva, o “Zezinho da dona Fia”, como era conhecido lá na sua Turiúba, que, segundo ele, quer dizer Facho de Luz, em tupi guarani, contava. Seu Zezinho se emocionou várias vezes ao se lembrar dele, menino, se banhando no rio Santa Bárbara, no “Caidô”, local muito conhecido, onde até hoje as pessoas se banham na queda d’água logo abaixo da ponte. Enquanto ele falava, tentei puxar pela memória e me lembrar de alguém que conheço e que nasceu naquela cidade. Ao lembrar-me, perguntei-lhe se ele conhece o dr. Manoel Neves Filho, Manezinho, para os íntimos. Ao ouvir esse nome, seus olhos se encheram de brilho.

Com muito orgulho, disse que conheceu sua família e que o “mininu” era muito esforçado e só podia dar no que deu. O Manezim foi uma criança igual a todas da sua época. Seu pai, Manoel, morreu aos 33 anos. Sua mãe, dona Geni, se desdobrou para criar os dois filhos. De manhã, para a escola, e à tarde iam ajudá-la na roça. Aos sábados e domingos, engraxavam sapatos na praça. O dinheiro que juntavam, parte dava para a mãe, e a outra deixavam na mercearia do João Caires. Estavam juntando dinheiro para colocar luz em casa. Naqueles tempos as dificuldades eram tantas, que, mesmo morando na cidade, havia casas que não tinham eletricidade. Um dia o amigo disse que já tinham o suficiente para ligar a luz. Os meninos sabiam que ainda faltava muito dinheiro, tinham certeza de que o restante fora completado pelo dono da venda, penalizado pela mãe, que, depois de chegar da roça à noitinha, ainda ia passar roupas “pra fora” no ferro à brasa. Quando não tinham serviço na sua roça, Manezim subia na carroceria do caminhão de boias-frias, e lá ia o menino, cantando velhas modas caipiras, apanhar laranjas. Encontrava tempo para brincadeiras nas ruas empoeiradas da vila com a meninada. O jogo de birocas com bolinhas de gude era seu preferido. Ia buscar no brejo o saibro para fazer pelotas para caçar codornas e nhambuzinhos nas “paiadas”, depois das colheitas do milho ou do arroz. Nos batedouros, os restos dos cereais no chão eram atrativos paras as aves, e ali ele armava as arapucas. Nos finais das tardes, iam em bandos se banhar no “Caídô”, onde brincavam de Tarzan, agarrados a cipós. O amigo continua falando do ídolo: “O mininu deixou a terra natal para vir se aventurar na cidade grande. Aqui estudou, se tornou “adevogadu, i dus bão”, e tem a sensibilidade de conduzir com pulso firme o Centro Social do Estoril e a Creche Irmâ Julieta. Mantém a creche e o centro social com as festas que promove, dentre elas, o Jeca Fest e a Feijoada do Mané”. E termina dizendo: “Que o facho de luz da nossa Turiúba continue te iluminando sempre, meu amigo”!

JOCELINO SOARES

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