‘Causu verdaderu’

Postado em mar 14, 2015 | Sem nenhum comentário
‘Causu verdaderu’

Quando menino, deixava as brincadeiras com meus coleguinhas de lado para sentar-me, em silêncio, na roda com os adultos, nos fins de tardes, começo de noite, para ouvir histórias. Causos e fatos de antigamente me fascinavam. Sentia saudade de algo que não tinha vivido. Seu João Guerra era um grande contador de anedotas.

Contava com tanta convicção que, para um menino, além de fascinante, era tudo verdadeiro. Quando chegava à roda, até os adultos se preparavam, porque sabiam que, com certeza, a noite estaria garantida com boas gargalhadas. Seu João nasceu no sertão, conhecia de cor e salteado o nome das árvores e das plantas medicinais. No fundo do seu quintal, pés de pariparoba, sabugueiro, carqueja, losna, erva cidreira, quina, poejo, hortelã, araruta, coentro, erva doce, salsa parrilha, chapéu-de-couro, erva-de-bicho e mais uma infinidade que, por mais que puxo pela memória, não consigo lembrar.

Certa vez contou que seu pai tinha criação de porcos na beira de um ribeirão, lá pros lados do Serradão, atual José Bonifácio. Ao lado do mangueirão, plantação de mandioca para dar de “cumê” pros bichos. Solo fértil, terra preta, boa para o plantio do tubérculo, era plantar e, em pouco tempo, eles cresciam numa velocidade espantosa, dando raízes nunca vistas. Como era costume, todas as manhãs, o pai do seu João foi dar trato aos animais. Sentiu falta de alguns, não deu muita importância. Quando, à tarde, foi novamente tratá-los, faltava mais da metade da criação.

Não encontrou buraco na cerca, nem sinal de arrombamento. Preocupado, pensando ser onça a causadora do desaparecimento, começou a procurá-los de cartucheira em punho, e nada de encontrá-los. Chamou os cães para ajudar na busca. Já era noite quando resolveu retornar para casa. Cansado de andar nos atoleiros no meio do brejo, amassando taboas, pulando moitas de assa-peixe, com barro até a medula, só pensava no prejuízo, até porque os porcos estavam no ponto de abate. Dentro de alguns dias, estariam em marcha pela estrada, em direção à cidade, para serem vendidos.

Agora seu lucro, literalmente, tinha ido para o brejo. Sua busca foi infrutífera às margens do riozinho. Chegando à casa, contou o fato para a esposa, ela tentou acalmá-lo, dizendo que talvez no outro dia tivesse sucesso na procura. Tomou banho no bacião, jantou, foi dormir mais cedo e injuriado. Não dormiu direito, pensando no prejuízo que a porcada tinha lhe dado. Bem antes do horário de costume, levantou-se, nem tomou café, e lá foi ele pra perto do mangueirão tratar dos que não haviam fugido.

Qual foi sua surpresa, quando notou que todos os porcos se encontravam no chiqueiro e a cerca de lascas de aroeira continuava intacta. Ao meio-dia, quando foi limpar os cochos para colocar água fresca, quase caiu de costas. Nenhum porco pra contar a história. Ficou intrigado, entrou no mangueirão, foi por dentro até a beira do corgo, e não acreditou no que viu.

Os pés de mandioca cresceram tanto que as raízes atravessaram o rio. Os porcos foram comendo e escavando, fizeram um túnel saindo na outra margem. Foi só chamá-los na boca do buraco, que vieram todos correndo, para sua alegria. Segundo dizem, depois que os porcos inventaram a ligação de uma margem à outra por baixo d’água, é que os franceses e ingleses fizeram o túnel do Canal da Mancha ligando os dois países. Esse foi mais um “causu verdaderu” do seu João. Verdade? Não sei! Só sei que foi assim!

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